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"Museu do Sabugal – Colecção Arqueológica", Sabugal, 2008, p. 73-83.

Epoca Romana I 73 POR TERRAS DO SABUGAL NA EPOCA ROMANA Pedro C. Carvalho Instituto de Arqueologia, Universidade de Coimbra Os primeiros sinais da presenca romana efectiva em terras do actual concelho do Sabugal remontarao ainda ao seculo I a.C. Este tera sido um seculo de mudanca, de confrontos e de temores, caracterizado pelo socobrar do mundo indigena, proto-historico, e pela genese de um outro, marcado pelos interesses e designios do invasor romano. A epoca da chegada dos Romanos imaginamos estas terras do Sabugal ocupadas por gentes que residiam sobretudo em povoados de altura amuralhados. Muitos destes povoados do Ferro Pleno (seculos V — II a.C.) terao sido abandonados, como sera o caso do Sabugal Velho (Aldeia Velha), por nao se adaptarem as exigencias dos novos tempos. Outros, pelo contrario, terao continuado habitados durante o periodo romano, como sera o caso do Sabugal e da Senhora do Castelo (Bendada) — estes ultimos passam entao a ser vistos pelos Romanos como castella (povoados fortificados da Idade do Ferro que continuaram a ser ocupados durante o periodo romano). Outros ainda, embora tenham deixado de ser habitados, continuam a carregar o peso da memoria, distinguindo- se na paisagem como marcos territorials de referenda — alguns constituir-se-ao mesmo como lugares de preces e libacoes em plena epoca de dominacao romana, como tera sido o caso do emblematico Cabeco das Fraguas (lugar que merecera adiante uma analise mais detalhada). Nao e possivel determinar o momento preciso do primeiro contacto dos Romanos com as comunidades indigenas desta regiao. Provavelmente, os sinais iniciais da presenca romana por terras da Hispania terao tambem aqui ecoado a partir dos inicios do seculo II a.C. Logo desde o momento do primeiro desembarque das tropas romanas nas costas meridionals da Peninsula Iberica que os relatos da sua presenca terao progressivamente circulado por estas terras montanhosas do interior. Seriam relatos da vinda de novas gentes com outros habitos — uma nova lingua, novas vestes e novos produtos procurados e transaccionados. Narrar-se-ia entao, sobretudo, o inicio dasconquistas territorials do exercito romano. O avanco desta poderosa maquina de guerra comecava a pressentir-se nestes locais mais reconditos da Hispania, mas nao se observaria ainda no horizonte. Com efeito, antes de meados do sec. II a.C. terao sido esporadicas as incursoes feitas pelos exercitos romanos por territorios a norte do Tejo. O ataque perpetrado em 179 a.C. contra os Vaccei, localizados no vale medio do Douro, pelas tropas de L. Postumio Albino, tera passado ao largo desta regiao, talvez seguindo o caminho que mais tarde ficaria conhecido por "Via da Prata" (a mesma rota — em territorio espanhol — que tera sido posteriormente seguida por Q. Servilio Cepiao, em 139 a.C, quando atacou os Vetoes e Galaicos) (Appian. Hisp. 70, cit. Roldan, 1998:244). Durante 74 I Pedro C. Carvalho as chamadas "Guerras Lusitanas" (155-139 a.C.) — e mesmo que o teatro das operacoes se tenha sobretudo centrado em regioes mais meridionals da peninsula — os territorios da actual Beira Interior poderao ter sido igualmente palco de alguns confrontos, mas desconhecem-se por completo os lugares e o trajecto desses embates. Seja como for, ja nos finais do seculo II a.C, os reencontros periodicos entre as hostes lusitanas e romanas poderao explicar o aparecimento de tesouros monetarios (datados em torno do ano 100 a.C.) em territorios a sul do Sabugal (em lugares como Idanha ou Penha Garcia) (Alarcao, 1988: 18 e Alarcao, 1999: 2). Na primeira centuria a.C. a presenca romana na Beira Interior ganha, de uma forma gradual, outra dimensao. E provavel, desde logo, que o estanho das Beiras possa ter entrado nas rotas de exploracao romana a partir da decada de 90 a.C. Depois, no quadro dos conflitos sertorianos (82-72 a.C), esta regiao podera eventualmente ter sido palco de algumas incursoes militares pontuais, desenvolvidas a partir do grande acampamento de Castra Caecilia (Caceres). Mas mesmo que estes territorios da Beira Interior tenham ficado a margem das guerras de Sertorio, a partir de 61 a.C, com as investidas que Julio Cesar dirigiu contra o Mons Herminius, estes entrarao definitivamente na directa esfera dos interesses do poder politico e militar romano (Fabiao, 1989: 44-45). Estas campanhas de Cesar contra os Lusitanos poderao tambem ter-se desenvolvido a partir dos acampamentos de Caceres, avancando, eventualmente, pelo vale do Erges e serras da Gata e da Malcata, prosseguindo depois pelo vale do Zezere e dai, para norte, em direccao ao planalto da Guarda. Alguns anos depois, em 48 a.C, o ataque infligido por Q. Cassio Longino a capital dos Meidubrigenses (Numao) e ao Mons Herminius, e a sua retirada em direccao a Corduba, parece mesmo sugerir o planalto da Guarda- Sabugal como corredor de passagem das legioes romanas. No entanto, por agora, nao podemos associar directamente o territorio do actual concelho do Sabugal a estas movimentacoes militares, nem muito menos podemos elege-lo como zona de confrontos. Nao sabemos mesmo ate que ponto as comunidades indigenas aqui residentes, quando confrontadas com o invasor romano, se opuseram ao avanco dessas tropas — a reaccao ate podera ter variado consoante o povoado ou grupo de povoados. Nao sabemos igualmente quando e que essas populacoes indigenas se submeteram em definitivo ao dominio romano. Mas e provavel que ospopuli que habitavam estas regioes estivessem "pacificados" desde a decada de 60 a.C, aquando das campanhas de Julio Cesar. Se assim fosse, as incursoes militares romanas da decada de 40 a.C. as regioes montanhosas situadas mais a norte, para alem do rebordo do planalto Guarda/Sabugal e a caminho do Douro, escudar-se-iam numa retaguarda que ja nao estaria completamente desguarnecida (Carvalho, 2007: 87-88). Admitimos, portanto, que a presenca romana nestes territorios se tornou mais visivel em meados do sec. I a.C. Mas nesse momento, e no essencial, a paisagem manteria ainda intactos os mesmos tracos de outrora. E certo que um novo elemento comecava a revelar-se tambem nas terras do actual concelho do Sabugal. Os Romanos, pela primeira vez, mostravam claramente os seus intuitos: vinham para near. Todavia, esta presenca nao era ainda de tal modo signiflcativa que alterasse o panorama entao avistado sobre os campos e os lugares habitados de ambas as margens do Coa. Era apenas a suficiente para consolidar posicoes e assegurar o necessario equilibrio na relacao de forcas com as comunidades indigenas. Porem, mesmo depois de meados do seculo I a.C, este equilibrio desejado pelos romanos permaneceria ainda instavel, desenrolando-se sob um clima de tensao latente, em parte resultante, seguramente, do sentimento de conquista e da cobranca coerciva de tributes sobre as comunidades indigenas. Entretanto, mais a sul, nasplanuras da Plataforma de Castelo Branco, possivelmente em 35 a.C, e fundada a capital da civitas Igaeditanorum (Idanha-a-Velha) (Mantas, 1988: 418-420). A partir de entao, esta fundacao passara a constituir o ponto de referenda fundamental de controlo e ordenamento territorial de toda uma vasta regiao que se estenderia desde o curso do Tejo as nascentes do Zezere e Coa — regiao esta que, para os romanos, se distinguiria essencialmente pelos seus importantes recursos mineiros. Ora, neste contexto, a fundacao da capital dos Igaeditani constituira um marco extremamente importante, na medida em que sera so a partir deste momento que os romanos esbocarao um "piano" que previa a ocupacao, administracao e exploracao efectiva destes territorios interiores a norte do Tejo, aventurando-se tambem pelas terras altas e agrestes do Sabugal. Assim, nestas regioes, durante as ultimas decadas do sec. I a.C, o sinal desses novos tempos revelar- se-ia na presenca constante de destacamentos militares. Essenciais a manutencao da ordem e a cobranca de tributos, os contingentes militares revelavam-se igualmente Epoca Romana I 75 fundamentals para o bom desenrolar do processo inicial de ocupacao e exploracao do territorio a maneira romana. Mas se a sua presenca, neste contexto, se pode de algum modo intuir, em termos puramente arqueologicos continuam por descobrir no terreno provas inequivocas que o corroborem. Talvez o facto destes alegados destacamentos militares se encontrarem estacionados em acampamentos de ocupacao temporaria (castra aestiva), tendo assim deixado para tras poucos vestigios a superficie, acabe por dificultar o rastrear da sua presenca na Beira Interior. Ainda assim, e precisamente no planalto do Sabugal que se encontram dois lugares que podem ser referenciados como hipoteticos acampamentos militares: Alfaiates (Alfaiates) e Tapada Cabeca (Alagoas, Aldeiade Santo Antonio) (Curado, 1987, nota 1; Osorio, 2006: 86 e 121). Em Alfaiates, para alem das curiosas referencias a "cavas" num texto do sec. XVII (Osorio, 2005: 53-70), foi encontrado um "marco territorial militar" cujas similitudes tipologicas (suporte e dimensoes) e textuais que estabelece com a estela de Argomil (a inscricao romana conhecida mais antiga da regiao da Beira Interior), nos fazem supor a sua vinculacao a destacamentos do exercitus que, por razoes de controlo territorial e de policiamento de algumas franjas populacionais autoctones, se encontrariam estrategicamente estacionados em areas que o justificavam. Na Tapada Cabeca (Fig. I), por sua vez, e possivel ainda observar um sugestivo e bem conservado paredao de terra batida e fosso delimitando uma area ovalada com cerca de 2 hectares. Porem, a presenca militar em ambos os lugares, e num contexto de ocupacao tao recuado, carece ainda de confirmacao, so passivel de obter por meio de escavacoes arqueologicas. Na derradeira etapa do sec. I a.C, com o advento do primeiro imperador de Roma, Octavio Cesar Augusto, uma nova era comecava a desenhar-se na historia do Imperio. Tambem na Hispania, e nestas regioes em particular, o panorama da ocupacao romana vai conhecer transformacoes substantivas. Nos longinquos montes Cantabricos, as legioes de Augusto conseguem finalmente debelar o ultimo foco de resistencia das populacoes indigenas peninsulares. Todo o territorio hispanico e alvo de uma profunda reestruturacao administrativa, alicercada na criacao de novas provincias e na multiplicacao de civitates. Tambem novas cidades sao fundadas um pouco por todo o lado, de acordo com o modelo urbano romano, e desenham-se os trajectos das varias estradas imperials. Tal como, em termos de tecido economico, as alteracoes ao nivel da natureza e dimensao das actividades produtivas comecam a ser claramente visiveis, entrando a Hispania, definitivamente, num amplo mercado comum que se desenvolve em torno do Mediterraneo (mare nostrum), tambem na esfera do religioso ocorrem profundas mudancas, com a adopcao generalizada de novos deuses e novos rituais. Habitos diferentes e novas praticas do quotidiano instalam-se e reproduzem-se. Um novo mundo ganha assim progressivamente terreno, comecando mesmo a instalar-se nas regioes mais reconditas da Hispania. O territorio do Sabugal e igualmente sacudido de forma gradual por esta vaga de fundo. Em termos de organizacao administrativa, o modelo que a civitas dos Igaeditani tinha inaugurado e anunciado anos antes, estende- se de igual modo a estas regioes planalticas nas margens Fig. I - Vista do sftio da Tapada Cabeca (Aldeia de Santo Antonio). do Coa. Na mudanca de era, talvez por volta do ano 5 ou 6 d.C, o actual territorio do Sabugal passara assim a ser parte integrante de uma civitas. A criacao de uma entidade administrativa romana deste tipo implica a existencia de uma cidade capital e de orgaoslocais de governo, com a necessaria capacidadedejurisdicao (respublica) sobreumpovo (populus) que reside adentro do territorio (territorium) dessa civitas —cujos limites eram assinalados pelos chamados termini augustalis. Trata-se, assim, de um modelo de organizacao administrativa idealizado a maneira romana, regido por 76 | Pedro C. Carvalho um novo codigo de leis escritas, e que se revelara tambem essencial para colocar em funcionamento os mecanismos de exploracao economica e de reproducao e controlo social tipicamente romanos (Carvalho, 2007: 98 ss). Mas qual seria a civitas ou as civitates que veriam os seus territorios estendidos pelo actual concelho do Sabugal? O debate que suscita a problematica em torno da geografia etnica e politica em epoca romana (e tambem em epoca pre-romana) da Beira Interior encontra-se ainda longe de ser dado por encerrado. As insuficiencias e as ambiguidades que os textos dos autores classicos e os dados de natureza arqueologica revelam nao permitem respostas inequivocas e conclusivas. Por enquanto e na ausencia de outras descobertas mais esclarecedoras, apenas possibilitam o levantar de hipoteses e sustentam a continuidade do debate (Alarcao, 1998, 2001 e 2005; Osorio, 2006: 86 ss; Carvalho, 2007: 106 ss). Nao vamos prolongar aquiessa mesma controversia, esgrimindo para o efeito todos os argumentos possiveis que habitualmente sao invocados para sustentar esta ou aquela hipotese. Limitamo-nos, por agora, a apresentar aquela que nos parece mais convincente: assim, parte da regiao do Alto-C6a, na epoca romana, seria territorio dos Lancienses Transcudani, com capital na Povoa do Mileu (Guarda); eventualmente, uma outra parte, sobretudo aquela que se estendia para alem da margem direita do Coa, poderia integrar outra civitas, cuja sede se situaria provavelmente em Iruena (capital dos Mirobrigenses ou UruniensesV), hoje em territorio espanhol (repartindo-se assim estas terras por duas unidades administrativas romanas e reproduzindo-se, portanto, noutro tempo e sob outros moldes, uma ancestral reparticao entre Lusitanos e Vetoes); ora, se assim fosse, esta civitas dos Transcudani (que se estenderia a ocidente do Coa) confinaria a sul e a oeste com outros Lancienses, atestados nos termini agustalis encontrados nas imediacoes das actuais povoacoes de Peroviseu (Fundao) e de Salvador (Penamacor). Deste modo, o rebordo do planalto Guarda- Sabugal, para quern se deslocava desde sul, a partir da capital da provincia romana da Lusitania (sedeada em Emerita) e da emblematica cidade dos Igaeditani, constituiria um marco referencial na paisagem. Ou seja, formaria uma linha delimitadora e simbolica ininterrupta (iuga montium) — essa linha montanhosa que, observada desde a Cova da Beira (Fig. II), marca o inicio das terras altas da Guarda e do Sabugal, impunha-se como um "obstaculo" visual e assinalava ("para alem de Cuda") o inicio de um novo territorio (Carvalho, 2007: 114-116). Fig. II - Planalto da Guarda / Sabugal visto da Cova da Beira Uma vez mais, foi o exercito romano, agora pela mao dos seus quadros tecnicos especializados, que tera procedido no terreno tanto a delimitacao territorial das civitates e a eleicao e construcao dos seus lugares centrais, como a definicao dos principals eixos da rede viaria. Se algo no imaginario popular actual continua ainda estreitamente associado a presenca romana serao, sem duvida, as "calcadas" e as "pontes romanas". Com efeito, os Romanos, no dealbar do seculo I d.C, terao sido os responsaveis pela abertura de estradas e pela construcao de pontes neste territorio do Alto-C6a. Mas nesta regiao, tal como noutras, nem sempre serao romanos todos aqueles antigos caminhos largos lajeados que seguem hoje trajectos pouco frequentados ou todas as solidas pontes em pedra que permitem ainda fazer a travessia de alguns cursos de agua. Muitas destas calcadas e pontes datarao da Idade Media ou mesmo da Epoca Moderna. Outras, na origem, poderao ter sido romanas, mas a sua continuidade de utilizacao em epocas posteriores ditou sucessivos arranjos, sendo hoje poucos os tracos construtivos observaveis que remontam ao momento inicial da sua construcao (Fig. III). Por sua vez, muitos dos caminhos genuinamente romanos, cujos principals trocos seriam em terra batida, apagaram-se gradualmente com o passar dos tempos pelo facto dos seus trajectos ja nao serem percorridos; tal como se diluiram as marcas de muitas estruturas que permitiam as travessias de rios e ribeiros, Epoca Romana I 77 desde logo por nem sempre os Romanos terem recorrido a construcao de pontes em pedra. Seja como for, neste territorio do Sabugal, ainda hoje e possivel intuir o trajecto de alguns dos principals caminhos romanos, sendo possivel fazer este exerclcio com base, essencialmente, no achado de alguns marcos miliarios (colunas em pedra que indicavam, milha a milha, i.e. a cada 1480 metros, a distancia sobretudo em relacao a um certo nucleo populacional importante). Deste modo, e de forma resumida, poderemos desde ja referir que um dos principals eixos romanos que cruzava este territorio, oriundo de sul, desde a capital dos Igaeditani, ligaria a Meimoa (vicus Venia) ao lugar ocupado posteriormente pela vila do Sabugal, nas margens do Coa, dirigindo-se depois para oriente, possivelmente em direccao a Iruena (capital de civitas), passando nas proximidades do Soito e do Sabugal Velho (ou entao mais para norte, rumando a Salamanca/Sa!ma«fica, tambem capital de civitas, passando por Vila Boa, Alfaiates e Aldeia da Ponte; cf. Osorio, 2006:120-124). Parte deste trajecto encontra-se perfeitamente atestado pela descoberta de tres miliarios na zona de Santo Estevao e Alagoas (Pecas n.0!. 160 e 161) (Curado, 1987) — alias, neste lugar, percorridas cerca de 8 a 9 milhas desde a Meimoa, existiria junto a Tapada de Santa Maria uma povoacao romana (vicus) que poderia integrar uma pequena estalagem (mutatio) para descanso dos viandantes e muda de cavalos. Esta seria a mais importante via imperial (viae publicae) que faria a travessia do Alto-C6a e que contava ainda com um outro eixo que a certa altura ramificava para norte, passando por Aguas Belas e pela Quinta de Sao Domingos (ou mesmo por Pousafoles), em direccao a possivel capital dos Lancienses Transcudani (Povoa do Mileu, Guarda). Para alem destes importantes eixos viarios, haveria ainda uma rede de caminhos secundarios e privados que ligavam lugares habitados e percorriam vales que por excelencia constituem corredores naturais de passagem (como sera o caso, a tltulo de exemplo, dos vales da Ribeira da Inguias e do Casteleiro, que ligam os actuais concelhos de Belmonte e do Sabugal). Foram tambem estes principals eixos viarios que acabaram por estruturar o territorio ao condicionarem a Fig. Ill - Canada dos Amiais (Aldeia de Santo Antonio). propria distribuicao do povoamento romano. Poderemos mesmo afirmar que a fundacao de nucleos populacionais mais ou menos extensos, e com feicoes que em certa medida se aproximavam dos modelos urbanos e arquitectonicos romanos, nao sera anterior nestes territorios a criacao e delimitacao das civitates e a construcao dos principals eixos da rede viaria. Tal como a ocupacao dos campos, mediante novas formas de construcao e exploracao que se aproximavam do modelo romano, sera sempre posterior a este processo de reorganizacao territorial. Com efeito, poderemos mesmo assegurar que a paisagem nesta regiao do Alto-C6a, tal como noutras regioes da Beira Interior, so tera comecado a modificar-se verdadeiramente — fruto de uma presenca romana efectiva — no decurso do seculo I d.C. E nao foram apenas os aglomerados populacionais, arruados, com alguns ediflcios de traca arquitectonica romana, localizados em zonas mais baixas e abertas, que comecaram a evidenciar-se e a albergar as populacoes indigenas cujas geracoes anteriores viviam reunidas no cimo de alguns montes em povoados amuralhados. Tambem os habitats rurais que se dispersaram por todo o territorio, desde as modestas quintas as villae mais abastadas, terao acolhido uma parte significativa da populacao existente e mostraram uma nova logica de ocupacao e exploracao dos campos. No actual concelho do Sabugal encontram-se ja identificadasalgumaspovoacoesromanas (vici) com uma certa importancia (Osorio, 2006: 96-100). Todas elas terao sido protagonistas do processo de organizacao territorial nesta regiao do Alto-C6a; e todas tern ainda em comum o facto de se posicionarem no trajecto de importantes eixos viarios, podendo tambem ter sido lugares de mercado e palco de servicos administrativos. Um desseslugares, embora seja duvidosa a sua classificacao como vicus, podera situar-se precisamente junto a linha divisoria dos concelhos do Sabugal e Belmonte, no sltio de Nossa Senhora da Estrela (Inguias) — lugar onde se observam alguns vestlgios romanos a superflcie e se identificou uma inscricao consagrada a Jupiter por um cidadao romano. Um outro, de atribuicao tipologica mais segura, 78 | Pedro C. Carvalho localizar-se-ia no sitio da Tapada de Santa Maria / Mosteiros (Santo Estevao, Sabugal) — a grande extensao a superficie dos materials romanos, a observacao de alguns elementos arquitectonicos (muitos reutilizados nas construcoes da actual povoacao vizinha) e o achado de cinco epigrafes (uma delas votiva, consagrada a Vitoria), legitimam a classificacao deste sitio como vicus. Uma outra povoacao com alguma importancia situar-se-ia no lugar da Quinta de Sao Domingos (Pousafoles do Bispo). Situadaprecisamente, e de forma algo dissimulada, no sope do ja mencionado Cabeco das Fraguas, numa zona que permite avistar ao longe, para norte, o sitio da Povoa de Mileu, este lugar destaca-se essencialmente pelos achados epigraficos aiefectuados. Com efeito, foram aqui encontradas cinco inscricoes: quatro consagradas ao deus Laepus (Curado, 1984b) (o que sugere a presenca no local de um respectivo espaco de culto), uma registando uns vicani ocel[o]n[e]/nses (Fig. IV) e outra anepigrafa, havendo ainda referenda ao achado de outras catorze tambem anepigrafas (Rodrigues, 1959: 122; Rodrigues, 1959-60: 74). A epigrafe dos vicanos Ocellonienses, Ocelonenses ou Ocelennses (Osorio, 2002a: 310.2), que remete (respectivamente) paraum vicus Ocellonia ou Ocelona,podera mesmo registar o nome do vicus instalado neste lugar (Alarcao, 2001: 315; Osorio, 2002a: 310.2; Fernandes et alii; 2006: 185 ss), retomado provavelmente o nome do anterior povoado lusitano localizado no topo do Cabeco das Fraguas — Ocelum poderia ser assim o nome do povoado durante o I milenio a.C, o que significaria, dada a etimologia da palavra, e segundo a recente interpretacao de Blanca Prosper (2002: 109-110), que a comunidade ai residente designaria genericamente o sitio de "o Monte". A ligacao entre a povoacao romana da Quinta de S. Domingos e o povoado Proto-historico do Cabeco das Fraguas parece evidente. A proximidade entre ambos os sitios e o aparente abandono do povoado ja em epoca romana por parte dos seus residentes sugere mesmo uma transferencia da populacao do topo do pronunciado cabeco para o seu sope. Inclusivamente, a provavel dimensao religiosa que a Quinta de S. Domingos tera assumido em epoca romana poderia igualmente ter resultado de uma transferencia de funcoes antes centradas no suposto santuario pre-romano de ambito regional situado no Cabeco das Fraguas. No entanto, nao e de modo algum evidente a identificacao deste enorme cabeco como santuario — i.e., como local estruturado onde periodicamente ou de forma continuada se levavam a cabo cerimonias religiosas — e muito menos como santuario de ambito regional — assumindo-se como lugar de peregrinacao e devocao periodica e continuada. Pelo que nos foi dado a observar a superficie no Cabeco das Fraguas, este lugar numa epoca pre-romana nao seria mais do que um povoado amuralhado. A referida epigrafe rupestre (Fig. V) parece apenas documentar a pratica isolada de um ritual religioso que se traduzia no sacrificio de animais (suovetaurilium) levado ja a cabo em epoca romana e num contexto em que este lugar se encontraria ja desabitado. Alias, de acordo com a leitura desta inscricao ultimamente avancada por Blanca Prosper (2002: 56 — "uma ovelha a charca do povoado, um porco ao pantano [?], uma (...) prenhe a *Ekwona, deusa das pradarias, uma ovelha de um ano ao ribeiro do povoado e um bovideo macho (...) ao rio Tre[...]"), julgamos mais acertado integrar esta manifestacao particular num ambiente religioso local, uma vez que no seu texto sao unicamente referidos e venerados espacos sagrados Epoca Romana | 79 Fig. V - Inscricao rupestre do Cabeco das Fraguas (Pousafoles do Bispo). locais (como a charca e o ribeiro do povoado), omitindo-se inclusivamente no texto da epigrafe o nome do povoado e do dedicante (estes seriam os habitantes do suposto vicus de S. Domingos?) talvez pelo facto dessas praticas religiosas terem um caracter estritamente local — e nao regional ou supra- comunitario (Carvalho, 2007: 378). Seja como for, a data tardia desta inscricao (inserida ja num contexto de pleno dominio romano) tambem nao permite estabelecer uma correlacao directa entre a ocupacao pre-romana do Cabeco das Fraguas e o desenrolar no local de rituais religiosos. As praticas cultuais ai documentadas inscrever-se-ao antes num tempo em que o Cabeco das Fraguas estaria deserto e a comunidade local encontrar-se-ia agora estabelecida no lugar da Quinta de S. Domingos. Na memoria colectiva, contudo, permaneceriam ainda bem presentes as vivencias relacionadas com a ocupacao do anterior povoado amuralhado. O retorno a esse lugar far- se-ia agora pela via do sagrado. Seria mesmo a forte carga simbolica, que em epoca romana continuaria associada ao lugar do Cabeco das Fraguas, a justificar a (re)utilizacao do cimo do "Monte" como espaco privilegiado para praticas de indole religiosa. Agora como antes, o Cabeco das Fraguas continuaria a manter a sua dimensao simbolica e a ser observado como ponto de ancoragem na paisagem. Continuaria a incorporar um tempo desaparecido e a projectar valores de identidade de um povo. O proprio uso da lingua dita lusitana, revelada pela sua conhecida inscricao gravada ja com caracteres latinos, nao documenta apenas a manutencao de anteriores costumes ate uma data bem avancada do dominio romano, como revela a eleicao privilegiada deste lugar como espaco com memoria. Finalmente, outra povoacao romana importante, que podera desta feita ser antes classificada como castellum (uma vez quepoderater conhecido uma ocupacao continuada desde a Idade do Ferro), sera o proprio lugar onde se ergue a vila do Sabugal, posicionado num cabeco na margem direita do Coa (Osorio, 2002b: n.° 309; Osorio e Santos, 2003; Carvalho, 2007: 64 e 384). Embora, por enquanto, nao sejam muito expressivos os vestigios da epoca romana (mas ao qual nao sera alheio o facto deste sitio se encontrar encoberto pelo actual nucleo urbano), os achados arqueologicos recolhidos nos ultimos anos, aliado ao facto dos miliarios de Santo Estevao e das Alagoas poderem, eventualmente, tomar este sitio (que coincide com o lugar especifico de travessia do Coa e com um eventual limite territorial entre civitates) como ponto inicial de contagem das milhas, nao deixam de atribuir a este lugar um particular significado no quadro de uma paisagem pontilhada por pequenos assentamentos rurais. Mas neste caso particular, e sobretudo merecedora de um particular destaque a ara consagrada a Arentia Equotulaicense entretanto aqui descoberta (Fig. VI), uma vez que o epiteto registado podera denunciar o proprio nome do povoado (Curado, 1984a, Curado, 1988), isto e, o nome da vila do Sabugal na epoca romana — Equotule (Osorio, 2006: 90). Alias, a proposito deste epiteto indigena latinizado, Blanca Prosper (2002: 120-121) considera que este tera sido formado a partir da base *Ekwo-tullo, relacionando-o com o termo latino meditullium, que significara terra intermedia (ou zona interior de um territorio), o que nao deixa de ser sugestivo atendendo a propria Fig. VI - Ara da Igreja de S. Joao (Sabugal). 8o | Pedro C. Carvalho localizacao do Sabugal, numa zona do planalto Guarda / Sabugal que poderia constituir um limite entre duas civitates (e ate entre os anteriores e supostos territorios de lusitanos e vetoes) ou mesmo um trifinium (Fig. VII) (se admitirmos a extensao dos limites de uma outra civitas — a dos Ocelenses Lancienses ou a dos Lancienses Oppidani — ate esse confim) (Carvalho, 2007: 146 e 151-152). Para alem destas povoacoes, outras haveria, bem mais pequenas, formadas talvez por uma duzia de casas, dispostas de forma desalinhada e sem qualquer area ou edificio central, nao apresentando, por conseguinte, os indices de urbanismo que os vici — mesmo que de forma mitigada — poderiam ja ostentar. Referimo-nos, neste ponto, as pequenas aldeias romanas, as quais se distinguiriam tambem dos anteriores aglomerados populacionais pelo seu afastamento relativamente ao trajecto das vias principals e pela sua estreita vinculacao a actividades de indole agro- pecuaria e mineira. Ora, pelas terras do actual concelho do Sabugal, terao existido algumas aldeias em epoca romana, como serao os casos dos sitios dos Pardieiros (Foios), Gibal (Malcata), Vilares (Alfaiates), Tapada do Acude (Urgueira), Aldeia da Ponte (Aldeia da Ponte), Vale da Vila (Rebolosa) e dos Vilares (Baracal) (Osorio, 2006: 100-102). Mas uma parte consideravel da populacao teria centrado as suas vidas num sem numero de nucleos rurais dispersos pelos campos. Seriam sobretudo quintas e casais, e tambem algumas villae (residencias de campo de gente abastada), que acolheriam estas gentes e, assim, lhes proporcionavam sustento. As primeiras, seguramente mais abundantes, revelariam ainda tracos de ambientes passados e reflectiriam o perfil das populacoes indigenas que nelas residiriam: paredes de alvenaria, sem argamassas nas juntas ou a rebocar as superficies, e chaos interiores de terra batida (Fig. VIII); a presenca romana, no entanto, ja se revelava claramente tanto no modo como o espaco construido se encontrava organizado e nas tecnicas construtivas utilizadas, como nos novos materials de construcao empregues (desde logo nas tegulae e imbrices que passam a cobrir essas casas — Pecas n.0! 116 a 119). As villae, menos frequentes, e instaladas nos vales mais ferteis, transpunham de algum modo para o campo os ambientes requintados das casas romanas das cidades (domus): utilizar-se-iam, por exemplo, colunas e capiteis na construcao de algumas fachadas (como as que foram encontradas em Ruivos — Pecas n.0! 114 e 115), as paredes de certas salas seriam estucadas e pintadas, os Fig. VII - Geografia politica da Beira Interior na epoca romana Fig. VIII - Casal do Relengo (Aldeia de Santo Antonio). Epoca Romana I 81 chaos seriam formados por uma argamassa compacta (opus caementicium ou signinum — Peca n.° 124) ou mesmo por mosaicos coloridos {opus tessellatum) e toda a area interior residencial poderia ser concebida em funcao de um espaco central, descoberto e ajardinado, rodeado de colunas {atrium ou peristylium), existindo ainda, numa parte lateral da casa, ou mesmo num edificio independente, um espaco (termas) destinado ao apurado ritual dos banhos romanos. Mas uma villa era tambem uma unidade de exploracao agro-pecuaria, Fig. IX - Peso de lagar de Quintas das Vinhas (Baracal). que se encontrava a cabeca de uma extensa propriedade (i.e., de um fundus, com varias dezenas de hectares) que explorava, contando para o efeito com uma serie de instalacoes e equipamentos (desde os lagares aos armazens: Fig. IX), que permitiam aos seus proprietaries gerir as suas actividades produtivas de acordo com uma nova logica genuinamente romana. Quintas e casais reproduziriam tambem este modelo de funcionamento e de exploracao agro-pecuaria nas suas terras arrendadas, ainda que a uma escala mais reduzida e nao se encontrando tao dependentes dos designios dos mercados. Seria sobre este cenario eminentemente rural, recortado por parcelamentos irregulares, marcado por algumas povoacoes esparsas e tecido essencialmente por uma rede de nucleos rurais espalhados pelos campos, que a labuta diaria destas gentes teria lugar. Os casais, as quintas e as villae que se conhecem no actual concelho do Sabugal (Osorio, 2006: 102-112) permitem imaginar tanto aextensao dos campos cultivados ou das areas de pasto, como as terras nao desbravadas, ocupadas apenas por matas e matagais. Muitas das praticas entao mais recorrentes, como a tecelagem e a fiacao ou mesmo a fundicao e a producao de ferramentas, podem hoje ser deduzidas a partir de alguns objectos perdidos pelos campos que sao por aqui identificados: dos pesos de tear (como aqueles encontrados na Rebolosa, Moita, Casteleiro, Bendada ou no Rendo — Pecas n.0! 128 a 134) e os cossoiros (como os recolhidos no Rendo e Aldeia da Ponte — Fig. 125-126) aos simples pedacos de escoria. A agriculture e o pastoreio seriam as actividades basicas destas economias antigas. Mas as transaccoes periodicas de alguns excedentes agricolas ou de produtos manufacturados complementariam o peculio de algumas famflias. Estas transaccoes far-se-iam em mercados locais e regionais. Mercados estes que, em epoca romana, atingiam uma nova dimensao. Nao so circulariam por eles, com alguma abundancia, a moeda romana (encontradas, por exemplo, no Relengo, Santo Estevao, Moita ou Vilar Maior — Fig. 148-152), como tambem ai poderiam ser adquiridos diferentes produtos oriundos de regioes longinquas: desde o garum (molho de peixe) produzido no litoral atlantico, a terra sigillata (louca fina de mesa) (como aquela recolhida, por exemplo, no Casteleiro ou na Moita — Pecas n.0! 144 a 147) fabricada em oficinas localizadas na Galia ou noutras zonas da Hispania. Neste interior norte da Lusitania, e desde muito cedo, a actividade mineira tera tambem desempenhado um papel fulcral na composicao do tecido socio-economico regional. Nas terras do Sabugal vingariam sobretudo as extraccoes artesanais de ferro e estanho, feitas em filoes quartzosos de superficie ou em areais estaniferos, levadas a cabo por particulares. O cobre, essencial para o fabrico do bronze, tambem tera sido explorado, nomeadamente em minas existentes em torno das povoacoes da Bendada, Quarta-Feira, Urgueira e Pousafoles do Bispo. Tambem o ouro podera ter sido pontualmente explorado por bateamento nos depositos aluviais do Coa. E quern eram estas gentes que viviam nas terras do Sabugal ha cerca de 2.000 anos atras? Seriam colonos vindos de paragens distantes, algumas localizadas nas 82 I Pedro C. Carvalho zonas mais meridionais da peninsula, que trouxeram novos habitos e os valores da romanidade? Ou seriam populacoes indigenas com raizes locais e ainda em grande parte fieis a usos e costumes herdados? Uns e outros teriam aqui lugar — como e sugerido, desde logo, pelo tipo de onomastica que apresentam os individuos memorizados em inscricoes romanas descobertas no concelho (Osorio, 2006: 153-154). Prevalecem, no entanto, os nomes de origem hispanica. Ou seja, embora aqui se tenham instalado alguns individuos — civis e militares — cujo berco poderia situar-se noutras regioes bem distantes, e ainda outros cujas origens se poderao encontrar noutros lugares da Lusitaniaou das outras duas provincias hispanicas, o grosso da populacao seria indigena, com raizes fundamentalmente locais. Mesmo estes, a partir de certa altura, terao adoptado nomes latinos, mas muitos outros continuam a ser chamados por Boutius, Sunua ou Tongius — exemplos de nomes tipicamente indigenas e muito frequentes nesta area da Lusitania em particular. A presenca massiva de populacoes indigenas nestas regioes do interior norte da Lusitania nao deixara tambem de explicar melhor os contornos particulares que assumiria aqui a paisagem em epoca romana, nao reproduzindo exactamente os modelos urbanos e rurais observaveis entao noutras regioes mais meridionais da Lusitania ou ao longo da sua fachada voltada ao Oceano (Atlantico). A ausencia de extensos e monumentais nucleos urbanos, a prevalencia de quintas e casais, o incessante culto a divindades indigenas, a sobrevivencia da lingua dita "lusitana" (como prova a inscricao rupestre do Cabeco das Fraguas), a continuidade de toponimos e etnonimos com raiz indigena (os quais, em epoca romana, continuaram a designar povos e povoacoes, como seja o caso de Ocelum) e a propria manutencao da onomastica pre-romana, nao deixarao de se relacionar igualmente com os vinculos estreitos que continuariam a ligar estas comunidades ao passado (Carvalho, 2007). Mas seria sobretudo no dominio das crencas que ganharia maior expressao essa ligacao ininterrupta com o passado. E certo que, logo desde o sec. I d.C, alguns dos deuses do panteao romano (Jupiter e Vitoria) passaram a ser aqui venerados, mesmo pelas populacoes de origem local. Mas a adoracao continuada de um conjunto de divindades indigenas ancestrais — embora efectuada segundo um figurino ja romano — torna inegavel a sobrevivencia de manifestacoes conservadoras ou pre-romanas. E para as divindades ancestrais dos seus antepassados que continuam maioritariamente a dirigir-se as preces destas populacoes indigenas — e em Reva, Quangeius, Arentia, Vordio, Laepus Aetius, por exemplo, que estas gentes do Alto Coa, em plena epoca romana, continuam a encontrar o necessario amparo e resguardo (Osorio, 2006: 154-159). E nesta esfera do religioso que o peso da tradicao se manifesta de forma particularmente intensa. E esta a imagem que podemos esbocar para as terras do Sabugal em epoca romana. Imagem que nos seus tracos gerais se tera mantido durante cerca de quatro seculos. Mas o correr do tempo e sempre acompanhado pela inevitabilidade da mudanca. O Imperio romano do ocidente agoniza desde finais do sec. IV e conhece o seu fim no ano 476. Por sua vez, nestas regioes do extremo ocidental do Imperio, e durante to do o sec. V, Suevose Alanosencarregam- se de espalhar instabilidade e comecar a por termo a grande parte das criacoes romanas. O seculo seguinte e ja marcado pelo reino dos Visigodos. As civitates cederam entretanto lugar as paroquias e dioceses. Os proprios deuses de sempre, romanos e indigenas, nao resistem perante o avanco do deus cristao. Assistia-se, uma vez mais, a uma epoca de profundas mudancas. Aos olhos das gentes que viveram nas terras do Sabugal durante este periodo tardo-romano, o seu "mundo", irremediavelmente, estava a mudar — estes foram, seguramente, tempos de angustia e incerteza. Mas a presenca romana foi de tal forma expressiva e importante que as suas marcas nao desapareceram por complete Antes pelo contrario, muitas das suas principals realizacoes sobreviveram mesmo aos tempos mais conturbados, ao ponto de continuarem de algum modo vivas e actuantes ainda hoje, marcando as nossas proprias vidas. Inclusivamente, quando falamos de legado romano, e do conjunto de bens patrimoniais que revelam esse periodo marcante da nossa historia, o seu estudo, proteccao e valorizacao podera mesmo ser perspectivado no sentido de ajudar a construir o proprio futuro da Beira Interior. Epoca Romana I 83 Bibliogratia ALARCAO, Jorge de (1988) - O dominio romano em Portugal. Lisboa: Europa-America. ALARCAO, Jorge de (1998) - On the civitates mentioned in the inscription on the bridge at Alcantara, Journal of Iberian Archaeology, Porto, 0, p. 143-157. 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