Há 2000 anos em Celorico da Beira (entre as encostas da Estrela e o vale do Mondego ao tempo dos Romanos) more

Ed. C.M.Celorico da Beira, 2009.

Época Romana | 33 Há  anos em Celorico da Beira (entre as encostas da Estrela e o vale do Mondego ao tempo dos Romanos) Pedro C. Carvalho Professor do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade Coimbra Investigador do CEAUCP/CAM-FCT Os Romanos chegaram à Península Ibéria (Hispania), às costas da actual Catalunha e Andaluzia espanholas, no quadro das II Guerras Púnicas (218-201 a.C.). Todavia, o avanço das suas famosas legiões, rumo a norte, não foi fácil, nem sequer imediato. Antes de meados do séc. II a.C. terão sido esporádicas as incursões feitas pelos exércitos romanos por territórios a norte do Tejo. E mesmo estas terão passado ao largo do actual interior beirão. Só no decorrer das chamadas “Guerras Lusitanas” (155-139 a.C.) é que estes territórios da actual Beira Interior poderão ter sido palco de confrontos. De todo o modo, desconhecem-se por completo os lugares e o trajecto desses embates. Inclusivamente, ao contrário do que a historiografia tradicional afirma, não é totalmente seguro que a Beira Interior tenha sido o berço ou a região de eleição dos próprios Lusitanos (Carvalho, 2007: 55-86). A presença romana nos territórios a norte do Tejo só ganhará outra dimensão ao longo do século I a.C. Desde logo, os recursos mineiros, como o estanho das Beiras, poderão ser apontados como uma das principais razões que justificaram essa presença mais efectiva. Presença, todavia, que se terá observado numa região ainda não totalmente pacificada, explicando assim a continuidade dos embates entre romanos e populações indígenas – como se poderá deduzir de alguns tesouros monetários ocultados em pleno século I a.C. e que foram achados em lugares como a Tapada do Castelo (Longroiva, Meda) ou Menoita (Pera do Moço, Guarda). 34 | Pedro C. Carvalho Combates que se terão particularmente intensificado a partir de 61 a.C., com as investidas que o próprio Júlio César dirigiu contra os Lusitanos do Mons Herminius (Díon Cássio, XXXVII, 52-55), continuadas depois por um outro general, Cássio Longino, que em 48 a.C. terá ainda atacado a capital dos Meidubrigenses (localizada na actual área de Numão). Em boa verdade, na actualidade, desconhece-se a localização exacta do Mons Herminius. Questiona-se mesmo a sua identificação com a Serra Estrela. No entanto, e de igual forma, também não podemos rejeitar liminarmente à partida esta tradicional proposta. E se admitirmos mesmo como possível esta identificação com a Serra da Estrela, então talvez possamos imaginar o actual território de Celorico da Beira – em meados do século I a.C. – a ser percorrido pelas afamadas legiões romanas, comandadas inicialmente por Júlio César, através de investidas que teriam como ponto de partida os acampamentos de Cáceres, na actual Extremadura espanhola, e como percurso preferencial o vale do Zêzere e o planalto da Guarda (Carvalho, 2007: 86-94). Estas movimentações bélicas, porém, ainda não se reflectiram claramente até ao momento no registo arqueológico, ou seja, em toda a actual região da Beira Interior não se acharam ainda no terreno expressivos testemunhos da passagem ou permanência dos exércitos romanos nesta fase recuada. Desde logo, e perante a falta de investigação no terreno, desconhecemos os lugares de acampamento militar ou não sabemos se esta presença romana terá produzido grandes destruições (e o consequente abandono) dos povoados amuralhados indígenas, com origem na Idade do Ferro. A presença de destacamentos militares romanos apenas se pode depreender a partir de algumas referências inseridas em textos de autores clássicos ou então é sugerida pelo achado de alguns testemunhos arqueológicos isolados, como sejam o possível marco territorial militar de Argomil (Pomares, Pinhel), datado possivelmente de 23 a.C., ou mesmo alguns projécteis de funda em chumbo (objectos característicos do arsenal bélico romano). Seja como for, só nas últimas décadas do século I a.C., ao tempo do primeiro imperador de Roma, Octávio César Augusto, é que a região beirã – na qual se inclui Celorico – entrará na órbita directa e estreita do domínio romano. Só ao tempo deste imperador Augusto, em torno da mudança de Era, é que o território do actual concelho de Celorico da Beira (e dos restantes concelhos da Beira Interior), se encontrará totalmente pacificado, começando assim a ser governado e explorado à maneira romana. Ora este facto, como veremos adiante, produzirá importantes alterações a todos os níveis, desde o novo plano que passou a organizar administrativamente o território, aos novos edifícios e modos de vida que marcarão o quotidiano das suas gentes. Este processo de pacificação das populações nativas, no entanto, não terá implicado a deslocação de contingentes militares romanos para outras regiões mais conturbadas do Império. Alguns destacamentos militares terão mesmo assim permanecido nestas terras, não só para as policiar, debelando qualquer possível foco de rebelião, mas sobretudo para participar na organização e exploração destes territórios à maneira romana. Com efeito, o exército romano neste período, e agora em tempo de paz, desempenhou um outro papel que se revelou absolutamente decisivo: coube-lhes, por exemplo, supervisionar a construção de estradas e edifícios públicos, a demarcação territorial das novas circunscrições administrativas (as civitates) ou o controlo técnico da exploração de grandes áreas mineiras (como as de estanho, mas sobretudo as de ouro, propriedade estatal). Aliás, já em pleno século I d.C., quando os achados epigráficos revelam a presença de militares romanos nestas paragens do interior beirão, muitas vezes poderemos associá-la a explorações mineiras – explorações que, perante as riquezas do subsolo, seriam muito frequentes e afamadas nesta região, ao ponto de algumas serem mencionadas pelos próprios autores clássicos, como é o caso de Plínio (4, 118) que designa os Meidubrigenses (povo localizado a norte de Celorico da Beira) de plumbarii (os “exploradores de chumbo”). Época Romana | 35 O governo do imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.) foi absolutamente decisivo para a Hispânia romana. Em 19 a.C. a totalidade do território hispânico encontra-se sob domínio romano, integrando-se, portanto, no quadro de um vasto Império que se desenvolvia em torno do seu próprio mar (Mare Nostrum) – o Mediterrâneo. Possivelmente entre 15 e 13 a.C. são criadas as três províncias romanas na Hispânia: a Tarraconenses, a Bética e a Lusitânia, esta última com capital em Emerita Augusta (Mérida) e com um vasto território que desde o sul da península chegava ao Douro (incluindo, portanto, o actual território de Celorico da Beira). Poderá também corresponder a uma iniciativa de Augusto a divisão territorial em conventus iuridici (circunscrições criadas para agilizar a administração da justiça, apreciando sobretudo as suas principais causas) – podendo o actual território de Celorico da Beira se encontrar sob a alçada do conventus Emeritensis (com sede na actual cidade espanhola de Mérida). E foi ainda ao tempo de Augusto, provavelmente durante a primeira década do século I d.C., que se dividiram estes territórios em civitates – entidades político-administrativas absolutamente fundamentais para a governação à maneira romana. Conhecemos hoje em traços gerais a geografia política romana delineada ao tempo de Augusto. Esta encontrava-se sobretudo desenhada com base nas civitates, entendidas como territórios administrativos e unidades tributárias, centrados numa cidade capital, na qual se encontravam os principais órgãos de governo local, os quais – à maneira romana – regiam os destinos de cada civitas e da população que nela residia ou estava recenseada (circunscrições administrativas que hoje, embora a uma escala mais reduzida, os actuais concelhos de algum modo reproduzem). A área na actualidade ocupada pelo concelho de Celorico da Beira também se encontrava integrava numa civitas. À falta de outros achados arqueológicos ou referências literárias mais esclarecedoras, a nossa dificuldade hoje reside em associar a área de Celorico a uma civitas em concreto (Fig. I). Não se pode rejeitar a hipótese da civitas dos Lancienses Transcudani, cuja capital muito possivelmente se situaria na actual Póvoa de Mileu (Guarda), estender o seu território para sudoeste, abarcando pelo menos a parte norte do actual concelho. Já nos parece muito improvável o prolongamento do território de uma outra civitas, possivelmente a dos Tapori (com sede em Bobadela, no actual Concelho de Oliveira de Hospital) para as actuais terras de Celorico da Beira. Tal como também custa a admitir que o territorium da civitas dos Interanienses (com sede em Viseu) ultrapassasse o curso médio do Mondego e abrangesse zonas como a parte norte do concelho de Gouveia e o concelho de Celorico. Com efeito, a chamada “Bacia de Celorico”, afigura-se-nos como uma unidade geomorfológica suficientemente extensa, e posicionada numa importante zona de charneira, que permite ao menos admitir a possibilidade de existir uma outra civitas (desconhecida até ao momento) nesta vertente Noroeste da Estrela. É certo que as fontes clássicas antigas conhecidas (literárias e epigráficas) não validam esta hipótese, por não referirem nenhuma civitas que pudesse preencher este espaço (desde a Ribeira de Massueime e as alturas de Trancoso até à Estrela, abarcando assim toda a actual área do concelho de Celorico), mas também não se pode rejeitar liminarmente esta possibilidade (e que somente um futuro achado arqueológico no terreno poderá validar). De todo o modo, para esta região de Celorico, ao menos se admitirmos por agora como hipótese a presença de uma outra entidade administrativa romana, gozando de uma certa autonomia, os sítios com vestígios romanos dos Açores ou de Vale de Azares, como veremos, poderão ter-se assumido (ou um ou outro) como núcleo central, desempenhado assim um importante papel ao nível do governo local deste território. Seja como for, no actual estado de conhecimentos, parecenos que o mais provável é que as gentes de Celorico na época romana teriam de pagar os seus tributos ou dirimir as suas 36 | Pedro C. Carvalho imagem: José Luís Madeira Fig. I - As civitates conhecidas na região que engloba Celorico da Beira Época Romana | 37 causas na capital dos Lancienses Transcudani. Seria esta a sede das civitas onde se encontravam inscritos ou recenseados. Seria aqui também que efectuariam os seus principais negócios ou que dirigiam as suas preces aos deuses do panteão romano. Viveriam num território que confrontaria com outros, de idênticas características mas designados de outra forma, como as civitates dos Aravi (com sede em Marialva, Meda) e dos Colbeci (sedeados em Torre de Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo). Mas, tal como hoje os Celoricenses, gozariam de certa autonomia para gerir os assuntos da sua terra (res publica), preservando uma identidade fundada também em narrações cuja origem estaria muito para além do alcance da memória. Resta saber, porém, se estes se auto-intitulavam Lancienses ou se era outra a sua designação. Um dos testemunhos mais representativos – mesmo sob o ponto de vista simbólico – da presença romana no nosso território, e que povoou sempre o imaginário das populações até à actualidade, serão as pontes e calçadas romanas. Estas testemunham, desde logo, o engenho e a capacidade construtiva dos romanos, capazes que foram de montar pelo seu vasto Império um sistema de estradas que – como diz o velho adágio popular – acabariam todas por ir dar a Roma, capital do Império. Não é menos certo que muitas das pontes e calçadas romanas assim designadas, na verdade, não o são – ou seja, muitas serão medievais ou mesmo da época moderna; outras até poderão ter na origem sido romanas, mas – por continuaram a ser utilizadas nos séculos seguintes – conheceram continuados arranjos e repavimentações, pouco hoje restando da sua estrutura original (mas seja como for, sublinhe-se, não é por serem de um período posterior ao romano, que deixam de ter um menor valor patrimonial). Por outro lado, antigos caminhos romanos serão na actualidade indetectáveis, desde logo porque nem todos os troços obedeciam àquela calçada clássica, formada por lajes de médias ou grandes dimensões, que associamos às estradas romanas. Com efeito, a maioria dos seus percursos seriam simplesmente em terra batida, surgindo os troços lajeados sobretudo em zonas de serra ou então em zonas baixas e alagadiças, para além de se observarem também nas entradas de povoações importantes. Tal como muitas das travessias de rios e ribeiros se fariam recorrendo a pequenos pontões de madeira, a poldras ou mesmo a barcas. O actual concelho de Celorico da Beira também seria atravessado por algumas estradas romanas. Desde logo, a grande via imperial que desde Emerita Augusta (Mérida), a capital da província da Lusitânia, se dirigia para norte, em direcção a outra importante cidade romana, Bracara Augusta (Braga). Depois de passar pela imponente ponte romana de Alcântara, fazendo a travessia do Tejo, e pela importante cidade da Egitânia (civitas Igaeditanorum, Idanha-a-Velha), esta estrada cruzava a Cova da Beira e, após passar junto a Centum Celas (Belmonte), galgaria a Estrela passando próximo do castro de Barrelas (Famalicão da Serra, nas imediações da qual se encontraram alguns marcos miliários), prosseguindo depois pela Taberna (Videmonte), onde faria a primeira travessia do Mondego em plena serra, descendo depois à Bacia de Celorico, talvez por Prados ou Salgueirais, rumo a norte. Para além desta, uma outra estrada imperial poderia seguir genericamente o percurso que hoje segue a “Estrada da Beira” (N 17): neste caso, em época romana, ligaria a possível cidade capital dos Tapori (sedeada em Bobadela, Oliveira do Hospital), com a capital dos Lancienses Transcudani (Póvoa de Mileu, Guarda), cruzando assim as terras do actual concelho de Celorico, e a partir da qual arrancaria ainda uma outra em direcção a outra cidade romana, com sede em Viseu (Vissaium), passando antes por Infias (Fornos de Algodres). Para além destas, outras vias romanas poderiam seguir outros trajectos, quer encaminhando-se para a zona de Linhares e entroncando com uma outra estrada romana que mantém um importante troço lajeado conservado nos Galhardos (Folgosinho), quer ligando a norte com a civitas Aravorum (com capital em Marialva, 38 | Pedro C. Carvalho Meda), passando antes nas imediações de Maçal, Vilares, Póvoa do Concelho, Póvoa d’El-Rei, Vieiro e Coriscada, quer ainda aproveitando e seguido o rumo dum corredor natural que, desde o vale do Mondego, se abre em direcção a uma outra capital de civitas – a dos Cobelci (Torre de Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo), passando nas proximidades de Freixedas, Pinhel e Vilar Torpim. A estes e outros percursos romanos poderão eventualmente pertencer alguns troços lajeados que hoje conhecemos no concelho ou sobre os quais existem anteriores referências, como sejam as calçadas que se observam entre o Bairro de Santa Luzia e a Ponte da Lavandeira (Santa Maria), na Rapa (no interior da povoação), nas Alminhas (junto à povoação de Prados, no sentido da Rapa), nos Amiais (entre Prados e Linhares), na Corredora (entre a Igreja da Misericórdia e a Ribeira da Vila, em Linhares, continuando depois por Carvalhos Juntos) (Fig. II), na Portela (entre a Aldeia Viçosa e a extrema do concelho de Celorico da Beira) ou entre as Casas de Soeiro e a Vila Boa. Mas estes também poderão corresponder, como antes referimos, a caminhos medievais ou mesmo da época moderna, traçados numa época em que o povoamento já se encontrava estruturado em vilas e aldeias e era cerzido por uma rede de caminhos muitas vezes lajeados. Com o domínio romano a religião conhece também profundas transformações. Os anteriores santuários “lusitanos” ao ar livre, ocultos nos montes, nas florestas ou junto aos cursos de água, dão lugar a edifícios como espaços sagrados. E nos novos templos, com características arquitectónicas genuinamente romanas, uma outra novidade se poderia observar (e mesmo tocar): agora a divindade, pela primeira vez, apresentava-se sob a forma de imagem ou de presença figurada. E mesmo estas divindades eram totalmente novas, desconhecidas até então das populações nativas: Júpiter, Juno, Minerva e Marte, entre outros, são deuses do panteão romano que progressivamente foram aceites e venerados mesmo pelas foto: Danillo Pavone Fig. II - Calçada da Corredoura (Linhares da Beira) populações de ascendência hispânica. No actual concelho de Celorico da Beira não se conhece nenhum registo epigráfico que ateste o culto a estes deuses romanos, mas certamente que seriam também aqui cultuados, tal como o eram em regiões muito próximas, nas quais esses cultos se encontram perfeitamente documentados. De todo o modo, a religião afirmou-se também aqui como um dos mais eficazes factores de integração, na medida em que a assimilação das populações Época Romana | 39 nativas foi também conseguida mediante a partilha da fé ou das devoções genuinamente romanas. Mas na esfera da religião ou do sagrado os Romanos não se limitaram a impor os seus deuses, anulando as divindades indígenas de sempre. Nesta matéria, os romanos foram astutos e prudentes, percebendo claramente que para evitar sublevações seria melhor aceitar a manutenção de anteriores cultos, não mexendo nas crenças e convicções mais íntimas das populações locais. Neste campo das manifestações religiosas, com fundas raízes no passado proto-histórico, as alterações verificadas ocorreram apenas ao nível das práticas religiosas. Com efeito, as divindades indígenas continuavam a ser adoradas, mas à maneira romana, instituindo-se novas práticas e rituais: erguem-se pequenos altares epigrafados, fazem-se libações ou sacrifícios de animais de acordo com os bons costumes romanos, ao mesmo tempo que se proíbem os sacrifícios humanos anteriormente praticados nestas terras. Ora, no actual concelho, até ao momento, dispomos precisamente de duas provas inequívocas da sobrevivência desses cultos indígenas durante a época romana. Trata-se de duas inscrições romanas que o atestam e que nos revelam inclusivamente o nome de duas divindades – as quais foram objecto da particular devoção destas gentes há cerca de 2000 anos, constituindo assim as mais antigas divindades que se conhecem em Celorico da Beira. Uma encontra o seu nome gravado num penedo que importa proteger devidamente junto ao próprio castelo de Celorico (Fig. III). A leitura dessa inscrição rupestre revela-o: Munis ou Munidis. Embora a erosão do tempo dificulte bastante a leitura desta epígrafe do século I d.C., mesmo assim parece poder ler-se que um indígena, filho de um tal Malgueino, terá consagrado e registado nesse penedo os seus votos a uma divindade chamada Munis (divindade com uma área de devoção regional, visto que dela se conhecem outras referências epigráficas, em concelhos como Chaves, Paços de Ferreira, Vila Pouca de Aguiar ou Idanha) (Curado, foto: Danillo Pavone Fig. III - Inscrição romana rupestre, consagrada a Munis, de Celorico 1985: 641-643). Assim sendo, o monte pedregoso onde na Idade Média se ergueu o castelo de Celorico da Beira, foi um milénio antes lugar de preces e libações. Espaço sagrado que, como veremos adiante, poderia então encontrar-se sobranceiro a um pequeno povoado romano. Uma outra divindade encontra o seu nome gravado para a posterioridade numa ara que se pode observar no interior da capela de Nossa Senhora de Azares, na freguesia de Vale de 40 | Pedro C. Carvalho Fig. IV - Inscrição romana, consagrada a Ama Aracelene, de Vale de Azares Época Romana | 41 Azares (Fig. IV). E nessa outra pedra, recentemente descoberta, pode ler-se o seguinte: Consagrada a Ama Aracelene. Clemente, filho de Celer, e Licínio, filho de Cilo, Mandaram fazer (esta ara) à sua custa. Neste caso, Ama Aracelene corresponderá a uma divindade local, padroeira específica da população que vivia nessa área de Vale de Azares durante a época romana. Aliás, se o epíteto Aracelene deriva de um topónimo ou de um grupo étnico, poder-se-á propor que Amma seria uma divindade venerada pelos Aracelenos, habitantes de uma povoação romana chamada Aracelum, no seio dos quais se poderiam encontrar os dedicantes da oferenda: Clemente e Licínio (dois indígenas, pela forma como se identificam, mas ambos já com cognomes perfeitamente latinos) (Ferreira et alii, 2004). Com o domínio romano deste território as formas de povoamento ter-se-ão radicalmente transformado. Os anteriores povoados proto-históricos são abandonados e as novas gerações de populações nativas dispersam-se por zonas mais baixas e menos sinuosas. É provável que essa transferência de populações se tivesse iniciado ainda durante os finais do século I a.C. No século seguinte este processo de deslocalização estaria concluído e os antigos castros na sua generalidade abandonados. Com efeito, não se conhece em Celorico da Beira nenhum povoado da Idade do Ferro que se mantivesse ocupado – como povoado – em época romana. Não há neste território aquele tipo de aglomerados populacionais designados pelos romanos como castellum (povoado proto-histórico romanizado) – a não ser que um dia achados arqueológicos acabem por confirmar uma ocupação proto-histórica e romana na própria vila de Celorico da Beira, nas imediações do seu castelo. Só para o povoado da Pedra Aguda (Monte Verão, Rapa) é que se conhecem referências a escassos materiais da época romana (Pereira, 2003: 21-31). Neste quadro que representa uma paisagem nova, os campos do Celorico da Beira – na época romana – encontravam-se fundamentalmente ocupados por quintas e casais agrícolas. Estes seriam relativamente numerosos e neles residiriam populações com raízes autóctones e de parcos recursos. Conhecem-se até ao momento vários lugares no concelho que apresentam vestígios reveladores deste tipo de núcleos rurais romanos (Fig. V)1 : Quinta da Armada, Abelheira, Vila Longa e Quinta do Seixal (Fornotelheiro), Quinta das Lameiras (Minhocal), Garcia, Barrocal do Olival e Lavandeira (Santa Maria), Ribeira e Montalto (S. Pedro), Soito (Outeiro Negro, Baraçal), Aral, Quintal da D. Maria, Forca e Quinta da Torre (Açores), Quinta da Machada (Lageosa do Mondego), Ribeiro Pinheiro (Casas de Soeiro), Quintã e Tapada do Bufo (Vale de Azares), Quinta do Mouro (Cortiçô da Serra), Moitas Escondidas (Alto da Rasa, Salgueirais), Vale da Igreja e Lameiro de Santo Amaro (Mesquitela), Ribeira da Várzea (Ratoeira), Quinta do Seixal e Vara (Salgueirais). Em todos estes lugares podem identificar-se à superfície sobretudo fragmentos de telhas romanas (tegulae) e de louças de uso doméstico (desde grandes potes de armazenagem, a vasilhas de ir ao lume ou à mesa). Trata-se de singelos restos de memórias passadas que podemos observar espalhados pelo chão e que denunciam a presença de estruturas soterradas que teimaram em resistir ao passar dos séculos. A estrutura de uma dessas casas foi descoberta e escavada por arqueólogos aquando da construção da A25, no Montalto (S. Pedro). 1 Para a identificação das estações arqueológicas (designadamente da época romana) foram fundamentais os trabalhos de vários investigadores, desde as referências pioneiras – sobre S. Gens – de Pinho Leal (1873-1890) e Santos Rocha (1906), aos trabalhos dedicados de Manuel Ramos de Oliveira (1934, e com uma 2.ª edição em 1997) e de Adriano Vasco Rodrigues (1979 e 1992). Mais recentemente assistiu-se a um acréscimo da informação arqueológica sobre o concelho, fruto dos trabalhos de prospecção no terreno levados a cabo, primeiro, por António Valera e Ana Martins (1994), e depois, de modo mais desenvolvido, pelos arqueólogos celoricenses João Carlos Lobão, António Carlos Marques e Dário Neves (2006). Actualmente, fruto de todo este trabalho continuado, aproximam-se já da meia centena os lugares no concelho com vestígios da época romana, sobretudo mais concentrados na sua parte oriental. 42 | Pedro C. Carvalho Uma outra encontra-se agora a ser escavada no lugar de S. Gens, por iniciativa da Câmara Municipal (Fig.VI). E esta tem revelado as principais características destes núcleos rurais: muros de pedra irregularmente facetada e chãos de terra batida, sem particulares requintes construtivos. Ao mesmo tempo, as pequenas concentrações de materiais que encontramos dispersas por toda a área de S. Gens (ou Moirama), nas imediações da confluência da Ribeira dos Tamanhos com o Rio Mondego, parece revelar uma outra característica do povoamento rural romano destas regiões beirãs: a presença de pequenos agrupamentos de casas e casebres de habitar, com anexos para gado e para recolha dos produtos agrícolas, posicionados em topos de ligeiras elevações, à vista uns dos outros, ligados por laços solidários de vizinhança. Constituiriam assim uma espécie de pequenos aldeamentos, lugares de poucos vizinhos, que poderiam ainda observar-se no Olival do Clergo (Açores), na Tapada do Freixo (Fornotelheiro) e ainda nos sítios associados de Mata do Peramigo, São Domingos e Lameiras (Minhocal). Para além destas quintas e casais, e em zonas mais favorecidas pela riqueza do solo e amenidade do clima, poderia sobressair uma ou outra residência de campo de proprietários mais abastados. Estamos a referir-nos às típicas villae romanas – casas de campo com ambientes mais requintados, revelados pelos átrios ou peristilos interiores estruturados por colunas e capiteis, pelos mosaicos policromos e figurados a cobrir o chão de alguns aposentos, ou por uma área termal. E no actual concelho de Celorico poderia haver uma ou outra villae, a avaliar pelos vestígios romanos mais expressivos e abundantes que se podem observar sobretudo na Fonte Arcada (Vale de Azares)2 . Algumas destas villae poderiam pertencer a colonos (emigrantes vindos de paragens mais romanizadas), enquanto que outras, mais tardias, seriam propriedade de famílias cujos 2 Para este lugar existem referências ao aparecimento de fustes de coluna, dois potes com moedas de cobre, e uma pedra com a inscrição EX ORI (Oliveira, 1997) ou EX OFI (Alarcão, 1993). antepassados seriam indígenas. Aliás, a este propósito, convirá referir que nestas regiões do interior norte da Lusitania, a generalidade da população teria raízes locais, sendo reduzido o número de colonos emigrantes. Mas, para além deste povoamento disperso, havia também alguns pequenos aglomerados populacionais. Cada um, aos olhos de hoje, não passaria de uma pequena aldeia, designada de vicus pelos romanos, onde um casario modesto se encontrava mais ou menos apinhado entre arruamentos irregulares. Mas na época romana estas seriam povoações importantes, estruturando o povoamento rural em redor. Neste grupo, face à extensão dos vestígios romanos visíveis à superfície, destacase, desde logo, o lugar de Calvário / Panelas (Açores) (Fig. VII). Com efeito, se percorrermos quase todos os campos em redor da actual aldeia de Açores podem observar-se à superfície vestígios arqueológicos da época romana, incluindo cerâmica de construção, terra sigillata, pesos de tear e escórias. Parece-nos possível, inclusivamente, que actual aldeia se estenda por cima da antiga povoação romana3. Por sua vez, a fertilidade das terras e, sobretudo, a possibilidade desta se situar no entroncamento de estradas romanas que ligavam diversas capitais, são duas outras razões que parecem também corroborar a centralidade e a importância deste lugar4. E a estas poderíamos juntar um outro argumento: a possível importância que este lugar também conheceu no período visigótico, bem como nos seguintes tempos medievos (desde logo, como lugar de peregrinação), 3 João Lobão, António Marques e Dário Neves (2006) identificaram no interior da aldeia, guardados em casas de particulares, dois pesos de lagar romanos, e referem ainda o aparecimento de um capitel, uma base de coluna e pedras talhadas, para além de várias peças cerâmicas, aquando das obras efectuada na praça da Lameira. A esta referência junta-se a descoberta de um moinho e de um forno, quando se procedia à abertura de um valado para conduzir águas, para além de moedas (Oliveira, 1939: 182). 4 Embora hoje não se observe nesta freguesia qualquer troço de estrada romana, João de Almeida (1945) refere que junto ao sítio do Outeiro da Forca passaria uma calçada romana, a qual seguiria pela Ponte do Ladrão, situada a cerca de 3 km de Açores (Figueiredo, 1953). Época Romana | 43 imagem: José Luís Madeira Fig. V - Distribuição dos lugares com vestigios romanos no concelho de Celorico da Beira deixando assim antever uma centralidade que recua aos séculos imediatamente anteriores, ou seja, à época romana. Tal como poderia haver uma outra povoação romana nas imediações da aldeia de Vale de Azares, denominada Aracelum, se tivermos em consideração o etnónimo Aracelene que figura numa inscrição votiva romana encontrada na capela de Nossa Senhora de Azares – falta, porém, encontrar no terreno os restos inequívocos desse alegado vicus Aracelum, cujo nome, curiosamente, parece encontrar-se na origem do nome desta freguesia, designada num documento do século XVIII como Vale de Ares (Ares poderia assim corresponder “à evocação do primitivo topónimo Aracelum”, cf. Ferreira et alii, 2004: n. 24). Parece-nos igualmente possível que muito antes de se erguer o castelo de Celorico da Beira, esse lugar, ou as suas imediações, poderia ter dado guarida a uma pequena povoação romana, como a referida inscrição rupestre consagrada a Munis poderá de algum modo denunciar – o teónimo Munis ou Munidis é habitualmente interpretado como designando uma divindade feminina protectora de um lugar específico, como um vicus ou castellum. Resta, porém, encontrar outros vestígios no terreno que corroborem esta hipótese, sendo para isso necessário acompanhar todas as obras no actual centro histórico da vila de Celorico que impliquem a remoção de terras ou a demolição de paredes. Nesta paisagem eminentemente rural, desprovida de centros urbanos populosos e afastadas dos grandes eixos do comércio imperial, as economias domésticas não se desenvolveriam muito para além de uma lógica de subsistência. Os custos da interioridade, tal como hoje, já se fariam sentir na época romana. Claro que os mercados locais (e mesmo regionais) seriam procurados, mas eram essencialmente as necessidades básicas diárias das gentes espalhadas pelos campos que ditariam o volume de produção dos bens alimentares. Para suprir, desde logo, as épocas de maior penúria, as atenções destas populações voltar-se-iam para a exploração de uma ampla gama de recursos que o meio natural proporcionava: as práticas agrícolas, em primeiro lugar, mas também a caça e a pesca ou mesmo a exploração das riquezas mineiras do subsolo. Este sistema económico assentava numa estratégia que apostaria ao máximo na diversificação das actividades e na exploração 44 | Pedro C. Carvalho foto: António Marques Fig. VI - Estrutura habitacional de época romana na estação arqueológica de S.Gens dos recursos naturais disponíveis. Uma unidade rural de certa envergadura procuraria ainda ser auto-suficiente, dispondo sempre que possível de várias instalações e equipamentos, como sejam os lagares ou pequenas forjas (actividade de fundição que é revelada quando à superfície dos terrenos, juntamente com cerâmicas romanas, se encontram escórias). Mas outra actividade, tal como ainda hoje, assumiria então um particular destaque: a criação de gado e a pastorícia. Desde logo, as práticas de fiação e tecelagem na época romana também se encontram atestadas nestas terras pelo aparecimento de cossoiros e pesos de tear. Estes últimos são relativamente frequentes nas estações arqueológicas de Celorico da Beira: encontraram-se, por exemplo, na Quinta da Armada, Tapada do Freixo, Quinta do Seixal e S. Gens (Fornotelheiro), na Mata do Peramigo (Minhocal), no Calvário/Panelas (Açores) ou no Montalto (São Pedro). Por sua vez, a própria localização de certas quintas e casais parece deixar subentender a importância da actividade pastoril no dia-a-dia destas gentes. A presença deste tipo de núcleos rurais a cotas relativamente elevadas, em ambientes claramente de montanha, onde à partida pareceria até insuspeita a sua presença, constituirá prova disso mesmo. A lã, o leite (e seus derivados, como possivelmente o queijo e a manteiga) e a carne, que ovelhas e cabras forneciam, poderiam representar para estes núcleos familiares algo mais do que um mero suplemento das colheitas. E esta “vida pastoril de montanha”, como lhe chamou Orlando Ribeiro a propósito de épocas posteriores (1987: 145), encontraria aqui um cenário particularmente favorável, composto por lameiros nas plataformas mais baixas dos vales encaixados e por pastos naturais nos terrenos baldios da serra. Nesta época poderão ainda ter-se formado rebanhos relativamente grandes. E um maior número de cabeças de gado Época Romana | 45 poderia ter implicado o seu encaminhamento periódico para terras de pastos de utilização comunitária. Outros ainda maiores poderiam mesmo seguir rotas mais longas de transumância, como em épocas vindouras ocorrerá, entre os meses de Outubro e Março, em direcção aos campos do Douro e até de Idanha (Ribeiro, 1940-1941). Todavia, a eventual frequência regular, durante o período estival, das altas pastagens da Estrela (ou a procura de outras paragens ainda mais distantes), não encontra suporte arqueológico que a sustente. Tal não significa, porém, que esses percursos com os rebanhos não se efectuassem. A verdade é que será extremamente difícil encontrar provas materiais desse pastoreio sazonal. Caso se tenha verificado, tratar-se-á de um costume que não terá deixado marcas duradouras no registo arqueológico. A ausência de vestígios materiais que o comprovem, poderá resultar da natureza singela e perecível dos utensílios utilizados (muitos, decerto, em madeira) e, sobretudo, do carácter precário e temporário das estruturas onde se acomodavam os rebanhos e os homens: cancelas de paus e giestas para o gado e choças cobertas de palha para os pastores, ambas amovíveis. Mas talvez esta invisibilidade contraste com a provável importância do pastoreio de pequeno e médio curso no sistema sócio-económico destas comunidades serranas (Carvalho, 2007: 499-504). Na época romana, finalmente, a própria cobertura arbustiva e arbórea desta região também conhecerá algumas modificações. Por um lado, ter-se-ão desarborizado e arroteado terras, face à necessidade de aumentar os espaços cultiváveis ou destinados ao pastoreio. Por outro, multiplicam-se certas espécies cultivadas, como o castanheiro ou a oliveira. Tratarse-ão então de novas espécies (mas que caracterizam hoje a paisagem rural de Celorico da Beira) que a partir do século I se terão verdadeiramente afirmado e associado a outras de origem autóctone, como o carvalho cerquinho e negral, o azinho, o pinheiro bravo, o choupo, o álamo, o freixo e o zambujeiro, ou mesmo a algumas árvores de fruto, como a cerejeira, a ameixeira e o pessegueiro5. Será sobretudo nesta época que oliveira cultivada passará a substituir o zambujeiro na obtenção de óleo vegetal, utilizado então não só na alimentação, mas também como unguento, medicamento e combustível para a iluminação. O cultivo da oliveira assumirá progressivamente nesta região um papel central na economia rural, embora nunca tenha atingido a escala de produção de outras regiões do Império romano. Seria sobretudo uma produção para consumo local, e que nos é ainda revelada no concelho de Celorico da Beira por alguns pesos de lagar romanos que se observam, por exemplo, no Quintal dos Pinas (Minhocal), na Quinta do Monte Verão (Vale de Azares), no Calvário (Açores) ou em Santo António (S. Pedro). O castanheiro, por sua vez, entrará também na principal esfera das práticas de subsistência destas populações da encosta Noroeste da Estrela, começando na época romana a trilhar um percurso que o guindará a um lugar cimeiro no quadro das espécies arbóreas mais características desta região. No entanto, ressalve-se, tanto o castanheiro como a oliveira, desde o final da Idade do Ferro poderiam já povoar estas terras: tanto Estrabão como Plínio (autores clássicos que viveram no Alto Império), dizem-nos – a dado passo das suas obras – que os Lusitanos já cultivavam a oliveira, para além da própria vinha ou mesmo certas árvores de frutos como as cerejeiras. O que poderemos designar como época romana abrangeu quase meio milénio da história desta região. A vida das gerações que então se sucederam ao longo de vários séculos foi marcada por este domínio romano, repleto de novidades no início e de inseguranças no final. Aos confrontos e aos receios do primeiro século antes na nossa Era, sucedeu depois, a partir 5 Estas novidades ou as espécies nativas podem ser inferidas a partir dos estudos polínicos efectuados no âmbito de algumas escavações arqueológicas levadas a cabo na Beira Interior ou através dos diagramas polínicos obtidos para o “Charco da Candieira”, uma das lagoas da Serra da Estrela (KNAAP e VAN LEEUWEN, 1995: 201). 46 | Pedro C. Carvalho de Augusto, uma fase de aceleração histórica, marcada tanto pela originalidade e pela sofisticação das novas formas de construir, como dos novos hábitos do quotidiano ou ainda por uma nova organização político-administrativa. Nos primeiros tempos de domínio romano quase tudo seria novidade para as populações nativas. À semelhança do que se passava no restante Império romano, também se construíram nesta região edifícios públicos ou privados nunca antes vistos, como os templos nas cidades ou as villae nos campos, recorrendo a materiais de construção desconhecidos até então nestas paragens, como as telhas (tegulae e imbrices), os tijolos (lateres), as grandes pedras facetadas ou mesmo a argamassa que poderíamos apelidar de “primeiro cimento” (designado então como opus foto: Danillo Pavone caementicium), ou a novas técnicas e formas de construir, recorrendo-se à construção em arco e abóbada, à pavimentação dos chãos das casas com mosaicos, ao revestimento das paredes com estuque pintado, ao embelezamento das fachadas ou dos interiores dos edifícios com colunas e capiteis detalhadamente esculpidos em pedra. Depois novos costumes se interiorizaram gradualmente, desde uma nova forma de vestir aos hábitos observáveis em ambientes mais requintados e que se traduziam no banho diário nas termas ou na assistência periódica a representações teatrais. Também novos produtos alimentares passam a ser produzidos e sobretudo consumidos, mesmo que alguns venham de longe, de outras paragens do Império, como o garum (um muito apreciado molho de peixe que servia como Fig. VII - A área de aldeia de Açores Época Romana | 47 condimento) que era produzido em áreas industriais (cetárias) existentes junto à costa banhada pelo atlântico (Oceano) e transportado em ânforas. Ou então louças e outros objectos utilitários, que eram vendidos nos mercados locais e regionais, por vezes provenientes de outras regiões da Hispânia, da Gália ou mesmo da Península Itálica (como uma louça fina de mesa, coberta por um verniz vermelho, a que chamamos terra sigillata, e que hoje ainda podemos encontrar fragmentada nos lugares de Celorico que conheceram ocupação romana). Produtos que, localmente, poderiam ser transaccionados por troca directa, mas que nos principais mercados fariam correr as moedas romanas de mão em mão – moeda romana que então se assumiu verdadeiramente como a primeira moeda única da história, circulando por grande parte do actual território europeu, norte de África e Próximo Oriente (uma vasta área que então fazia parte do Império Romano), possibilitando também a formação de um primeiro grande mercado único estruturado em torno do Mediterrâneo. E ainda o latim – uma nova língua, escrita e falada, que se encontra na base da forma como hoje nos expressamos e entendemos e que constituirá, porventura, a maior herança que os Romanos nos deixaram. Ou seja, mesmo sem que nos apercebamos, nas nossas vidas, e no concelho de Celorico da Beira em particular, o legado romano encontra-se presente, tanto nos genes que alguns transportamos, como em diversos costumes que – mesmo ajustados ao devir da História – continuamos a reproduzir. E é uma herança material e imaterial que é pertença colectiva, que ajudou a construir também a identidade deste povo, que importa por isso conhecer e preservar, transmitindo-a às gerações vindouras. Post Scriptum. Já depois deste texto redigido e quando o livro “Celorico da Beira através da História” estava a ser ultimado, os arqueólogos António Carlos Marques e João Lobão, sob indicação de o Sr. Carlos Abel, identificaram na aldeia dos Açores uma importante inscrição da época romana – em fase de estudo para publicação – que confere ainda maior relevância histórica a esse lugar. 48 | Pedro C. Carvalho BIBLIOGRAFIA ALARCÃO, Jorge de (1988a): Roman Portugal, vol. II, fasc. I (Porto, Bragança & Viseu), Warminster. ALARCÃO, Jorge de [coord.] (1990a): Portugal das origens à romanização, Lisboa, Ed. Presença. ALARCÃO, Jorge de (1993): Arqueologia da Serra da Estrela, ICN-PNSE, Manteigas. ALMEIDA, João de (1945): Roteiro dos monumentos militares portugueses, vol. I (Beira), Lisboa. AZEVEDO, Pedro (1901): “Extractos arqueológicos das memórias paroquiais de 1758”, O Arqueólogo Português, VI (1.ª série), Imprensa Nacional, Lisboa, p.160. CARVALHO, Pedro C. (2007): Cova da Beira, ocupação e exploração do território na época romana, Conimbriga - Anexos 4, Ed. Câmara Municipal do Fundão e Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. CURADO, Fernando P. (1985): “Epigrafia das Beiras”, Beira Alta, XLIV, n.º 4, Viseu, p. 641-643. COLMENERO, António R. (1995): “Corpus de inscripciones rupestres de época romana del cuadrante noroeste de la Peninsula Ibérica”, Anejos de Larouco, 2, A Coruña, p. 9193. FARIA, António M. (1985): “Subsídios para um inventário dos achados monetários do distrito da Guarda”, Bibliotecas, Arquivos e Museus, vol. I, Lisboa, p. 679-694. FERREIRA, Maria Céu, OSÓRIO, Marcos e PERESTRELO, Manuel Sabino (2004): “Ara votiva a Amma de Vale de Azares”, Ficheiro Epigráfico, 77, n.º 347, Coimbra. FIGUEIREDO, J. Moreira de (1952): “Subsídios para o estudo da viação romana das Beiras”, Beira Alta, n.º 4, ano XI, Viseu, p. 299-330. LEAL, A. Pinho (1873-90): Portugal Antigo e Moderno. Diccionário geographico, estatístico, chorographico, heraldico, archeologico, historico, biographico e etymologico de todas as cidades, villas e freguesias de Portugal e de grande número de aldeias, vol. VI, Lisboa. LOBÃO, João C., MARQUES, António C., NEVES, Dário (2006): “Património arqueológico do concelho de Celorico da Beira: subsídios para o seu inventário e estudo”, Praça Velha, Vol. XIX, Câmara Municipal da Guarda, Guarda, p. 15-37. MOREIRA, M. Conceição (1980): Linhares, aspectos históricos, Serviço Nacional de Parques e Património Paisagístico, Lisboa. OLIVEIRA, Manuel Ramos (1997): Celorico da Beira e o seu concelho – através da história e tradição, Câmara Municipal de Celorico da Beira (1.ª edição, 1939). PEREIRA, Vítor (2003): “O Povoado Pedra Aguda (Subsídios para o seu conhecimento) ”, Praça Velha, vol. XIV, Câmara Municipal da Guarda, Guarda, p. 21-34. REPAS, Fernanda (2001): Religião na Beira Interior ao Tempo dos Romanos, Coimbra (dissertação de Mestrado em Arqueologia, policopiada, apresentada à Faculdade de Letras de Coimbra). RIBEIRO, Orlando (1940-1941): “Contribuição para o estudo do pastoreio na Serra da Estrela”, Revista da Faculdade de Letras, VII (1-2), Universidade de Lisboa, p. 213-303. RIBEIRO, Orlando (1987): Introdução ao estudo da geografia regional, Ed. João Sá da Costa, Lisboa. RODRIGUES, Adriano Vasco (1956): Subsídios arqueológicos para a história do concelho de Celorico da Beira, Coimbra. RODRIGUES, Adriano Vasco (1979): Celorico da Beira e Linhares – monografia histórica e artística, Celorico da Beira. SARMENTO, F. Martins (1883): Expedição scientifica à Serra da Estrella em 1881. Secção de Archeologia, Sociedade de Geographia de Lisboa, Lisboa. SANTOS ROCHA (1906): “A necrópole da Moirama, Época Romana | 49 nas vizinhanças de Celorico” Boletim da Sociedade Archeologica Santos Rocha, 1 (3), p.101-102. VALERA, António Carlos e MARTINS, A. M. (1994): “Levantamento arqueológico do concelho de Celorico da Beira, relatório do trabalho de campo”, Trabalhos de Arqueologia da EAM, 2, Colibri, Lisboa, p. 273-282. VILELA DA SILVA, L. D. (1808): Compendio histórico da vila de Celorico da Beira, oferecido a sua alteza real, o príncipe regente, 1808. VAN DEN BRINK, L. M. e JANSSEN, C. R. (1985): “The effect of human activities during cultural phases on the development of montane vegetation in the Serra da Estrela, Portugal”, Review of Palaeobotany and Palynology, 44, p. 193215. VAN DER KNAPP, W. O. e VAN LEEUWEN, J. F. N. (1995): “Holocene vegetation succession and degradation as responses to climatic change and human activity in the Serra da Estrela, Portugal”, Review of Palaeobotany and Palynology, 89, p. 153-211.
x

Log In

or reset password

Reset Password

Enter the email address you signed up with, and we'll send a reset password email to that address

Academia © 2012